Dom Lefebvre, 90 anos de sacerdócio

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Que graça extraordinária para um jovem subir ao altar como ministro de Nosso Senhor, ser um outro Cristo! Nada é mais belo nem mais grandioso aqui na terra. Para isto vale a pena abandonar sua família, renunciar a constituir uma, renunciar ao mundo, aceitar a pobreza.”

― Dom Marcel Lefebvre. Carta Aberta aos Católicos Perplexos, capítulo 7.

Quantas jovens almas, pelas mãos de Dom Lefebvre, terão subido ad altare Dei! Quantas almas, graças a ele, terão encontrado a alegria de consagrar inteiramente sua mocidade, sua maturidade, sua velhice, ad Deum qui laetificat juventutem meam!

Naqueles dias em que, por mistério de permissão divina, os mais altos hierarcas da Igreja começaram a render-se ao culto do homem, ao elogio do mundo, aos sinais dos tempos, suscitou a Divina Providência um bispo para salvar a pureza da Fé, para guardar o Santo Sacrifício da Missa e os sacramentos de sempre, para fazer sobreviver o sacerdócio católico. Depois de uma vida de Fé firme como a rocha, pôde certamente dizer a Nosso Senhor, no dia do seu venturoso juízo, o epitáfio que mandara talhar na rocha de seu túmulo: Tradidi quod et accepi.

No dia de hoje, cá na terra, comemoramos os noventa anos de ordenação de Dom Lefebvre. No hoje eterno do Céu, o Eterno Sacerdote o parabeniza:

Muito bem, Marcel. Muito bem, meu sacerdote!

O intrépido bispo, talvez se possa dizê-lo, sorrirá o mesmo sorriso manso, com a mesma serena expressão dos seus dias de combate. E que combate! E nós cá debaixo, nós os herdeiros de sua peleja, podemos bem rogar e suplicar e esperar daquela alma indelevelmente sacerdotal, bendita pelo caráter e mais ainda pela glória, que peça por nós ao divino interlocutor:

Senhor, dai-lhes sacerdotes! Dai-lhes santos sacerdotes!

* * *

Oração de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face:

Ó Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, conservai os vossos sacerdotes sob a proteção do vosso Coração amabilíssimo, onde nada de mal lhes possa suceder. Conservai imaculadas as suas mãos ungidas, que tocam todos os dias em vosso Corpo Santíssimo. Conservai puros os seus lábios, tintos pelo vosso Sangue preciosíssimo. Conservai desapegados dos bens da terra os seus corações, que foram selados com o caráter firme do vosso glorioso sacerdócio. Fazei-os crescer no amor e fidelidade para convosco, e preservai-os do contágio do mundo. Dai-lhes também, juntamente com o poder que tem de transubstanciar o pão e o vinho, em Corpo e Sangue, o poder de transformar os corações dos homens. Abençoai os seus trabalhos com copiosos frutos, e concedei-lhes um dia a coroa da vida eterna. Assim seja!”

A comunhão dos adúlteros e a Outra

O Casamento da Virgem. Giotto, c. 1305 (afresco).

As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos. Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá-la, purificando-a pela água do batismo com a palavra, para apresentá-la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível. Assim os maridos devem amar as suas mulheres, como a seu próprio corpo.”

(Epístola de S. Paulo aos Efésios, V, 22-28)

Eis a sublime lição que nos dá a Santa Igreja em cada casamento que celebra: a santa união de Cristo com seu Corpo Místico é o modelo da união entre os esposos, que Nosso Senhor elevou à ordem sacramental.

Nos últimos anos, sob o pontificado de Francisco, cresce a perplexidade de muitos fiéis (e até prelados) ante o escândalo da condescendência papal com o adultério. Mesmo em ambientes distantes e às vezes hostis à Tradição, levantam-se vozes estarrecidas com a oficialização, pelas mãos do Papa, de uma praxe há muito consumada em paróquias mais vanguardistas: a comunhão dos divorciados “recasados”. Espantam-se com razão, porque as palavras de Nosso Senhor não deixam margem à dúvida: “Todo aquele que abandonar sua mulher e casar com outra, comete adultério; e quem se casar com a mulher rejeitada, comete adultério também”[1].

Mas se hoje Roma contemporiza com as relações adúlteras, se da Cátedra de Pedro nos vem uma voz estranha, diferente da do Bom Pastor, a chamar de “misericórdia” a crueldade de confirmar o pecado ao invés de corrigi-lo, é porque meio século atrás um outro adultério ainda mais grave se introduziu no templo católico: um concílio ecumênico deu carta de repúdio à Fé de sempre para se unir às ideologias do mundo moderno, na infidelidade conhecida como aggiornamento. Não é à toa que Monsenhor Lefebvre, o fidelíssimo Atanásio do século XX, definiu a obra do Concílio e suas reformas como uma união adúltera entre os homens da Igreja e os princípios da Revolução[2]. E nosso Gustavo Corção, pouco depois, vislumbrou na novilíngua conciliar, no espírito saído do Vaticano II, os trejeitos e gafes que denunciavam a traição à Esposa com a “Outra”[3]. De fato, não há adultério sem a “outra”.

O Concílio Vaticano II quis inculcar que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, ao invés de afirmar que ela é a Igreja Católica, como sempre se fez. Na novidade dos termos, esconde-se a perigosa sugestão de que a Igreja Católica é apenas uma parte ― a principal, talvez; mas só uma parte ― da Igreja de Cristo. Nas seitas protestantes e nas comunidades cismáticas se encontrariam, entretanto, “vários elementos de santificação e de verdade, que, como dons próprios da Igreja de Cristo, conduzem para a unidade católica”[4].

Ora, a Mãe Igreja sempre ensinou que as seitas que dela se separam, por cisma ou heresia, guardam vestígios eclesiais, e não “elementos de santificação”. Vestígios são os restos, os destroços, os escombros de um edifício destruído; elementos são os tijolos intactos com os quais ele é construído: palavras diferentes para idéias muito diferentes.

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Fazendo a cabeça

Há dias, o presidente anunciou que indicaria para o STF e para o Ancine alguém “terrivelmamente evangélico”. Agora, no fim de semana, aparece numa foto de joelhos diante do sr. Edir Macedo.

A foto é bizarra: o presidente parece estar sendo coroado por Macedo com uma coroa pequena demais para a sua cabeça, o que obriga Macedo a um esforço tremendo. Ao lado, um outro senhor se apresenta como sério concorrente ao prêmio de melhor coadjuvante, porque parece fazer o que é próprio dos coadjuvantes: torce. Mas torce com um fervor profissional irretocável.

A esse espetáculo chamam “unção”. Que seja: depois que um sujeito se auto-proclama bispo, tudo lhe é possível ainda que só a ele convenha admiti-lo. Mas pelo esforço que fazem Macedo e seu coadjuvante, a coroa imaginária parece não ter sido untada direito.

Talvez nem o próprio presidente saiba qual é a sua religião. Já se disse “cristão”. Terá se convertido ao macedismo? Não vale esquecer que há alguns anos, num vídeo que viralizou, Macedo defendeu o aborto como solução para a infância pobre: antes morrer que nascer pobre, era essa a lógica. Nada muito católico (uma vez que a palavra “cristão” no Brasil tornou-se ambígua demais para definir alguma coisa).

E aí, cabe a pergunta: onde estão os católicos do governo? O presidente foi eleito com o apoio dos católicos, especialmente aqueles que se definem como “católicos conservadores”, isto é, críticos ma non troppo da Igreja pós-conciliar. Nesse grupo há de tudo um pouco o que os obriga a uma espécie de teologia dos likes. Na falta do que conservar, os conservadores tratam de conservar a si mesmos.

Talvez por isso não tenham dito muita coisa até agora: uns seguem mudos e outros tecem elaboradas justificativas, talvez à espera de uns cargos para os “terrivelmente” católicos.