A novidade do óbvio

Foi uma surpresa ler semana passada a clara desaprovação do ingresso de homossexuais nos seminários e nas ordens religiosas pelo Papa Francisco.

Diz a notícia: Francisco disse que “não há espaço” para a homossexualidade nas vidas de padres e freiras e que a Igreja deve ser “exigente” na escolha de candidatos. “Por essa razão, a Igreja pede que pessoas com essa tendência enraizada não sejam aceitas no ministério [sacerdotal] ou na vida consagrada”, afirmou.

A desaprovação é diferente da condenação peremptória de papas e santos de séculos anteriores. Vejamos o que há 450 anos São Pio V, um papa e santo, declarou na bula Horrendum illud scelus de 30 de agosto de 1568:

A fuga de Lot de Sodoma, Gustave Doré

” Portanto, desejando adotar com maior rigor o que decretamos desde o início de nosso pontificado, estabelecemos que todo sacerdote ou membro do clero, seja secular ou regular, de qualquer grau ou dignidade, que cometa esse horrendo crime, por força da presente lei seja privado de qualquer privilégio clerical, de qualquer ofício, dignidade e benefício eclesiástico; e que, uma vez degradado pelo juiz eclesiástico, seja entregue imediatamente à autoridade civil para receber a mesma punição que a lei reserva aos leigos que se lançaram nesse abismo.”

Em várias de suas crônicas, Nelson Rodrigues citava o “óbvio ululante”,  que até os paralelepípedos eram capazes de apontar. Exemplifico: “E o óbvio baixou, de repente, no estádio. Não há mais dúvida, não há mais nada. O jogador que o óbvio escala é inarredável, irreversível, assim na terra como no céu.”

Parece exagero, mas é esta degenerescência do bom senso um dos frutos mais tristes da modernidade. Um seminarista com tal fraqueza, que deseja ou que pratica a sodomia, é e sempre foi uma péssima vocação. Um padre ‘pervertido’ é o quadrado redondo.

Quem acredita que pessoas que sentem atração por outras do mesmo sexo (SSA) podem guardar continência, isto é, não sucumbirem às tentações contrárias mesmas à natureza, parece se esquecer de como se dá a vida sacerdotal ou religiosa. Padres, freiras, monges e irmãos religiosos normalmente vivem em comunidade, quase sempre dividindo quartos, salas e banheiros, sentam-se na mesma mesa, emprestam-se roupas e utensílios, compartilham de uma muito particular intimidade familiar e espiritual, e quase sempre, exclusivamente com pessoas do mesmo sexo.

No caso de seminaristas e noviças, há ainda a leviandade da adolescência e juventude, com sua curiosidade e manifestações fisiológicas. Todas essas premissas bastariam, e bastam, para explicar a tradicional exclusão de homossexuais de ambientes comunitários, como quartéis, navios, colégios internos e acampamentos como os de escoteiros.

Entretanto, a vida religiosa pressupõe o sobrenatural. Diz Santo Tomás

” (…) O ministério [leigo] referido consistia na prestação de serviços materiais, que também os pecadores podem licitamente prestar. Diferente porém é o que se passa com o ministério espiritual, a que se aplicam os ordenados; porque esse os torna medianeiros entre Deus e o povo, e por isso devem brilhar pela boa consciência na presença de Deus, e pela boa fama, no meio dos homens” E mais: “Certos remédios exigem uma robustez natural, do contrário seriam tomados com perigo da vida. Outros porém podem ser dados aos fracos. Assim também na ordem espiritual, certos sacramentos são ordenados como remédio do pecado; e esses devem ser ministrados aos pecadores, como o batismo e a penitência. Mas os que conferem uma perfeição supõem que quem a recebe é confirmado pela graça.

Em tempos de grandes escândalos no clero sem a devida punição e condenação por parte do seu chefe, algumas palavras, ainda que envergonhadas, que constatam simples obviedades, soam como novidade na boca do papa do “quem sou eu para julgar?”.

Presepada vaticana

A Eternidade em areia: metáfora da Igreja conciliar

Mais uma vez somos apresentados ao que de pior o Vaticano II e seus herdeiros podem produzir. Com alguma pompa, o presépio do Vaticano de 2018 foi inaugurado na última sexta junto com a árvore de Natal.

A “obra de arte” ficará na praça de São Pedro de 7 de dezembro a 13 de janeiro.

A novidade deste ano é a areia, material escolhido para as esculturas, que representam a natividade de maneira menos simples do que parece.

Somos escandalizados pela cena que quer retratar “fielmente” a chegada do Salvador, sem deixar de retocá-las com aquele pendor da modernidade para a sensualidade, a fealdade e o “estranhamento”.

Nike, a deusa da vitória

Que espécie de presépio pode ser este que sensualiza acima do pequeno menino Jesus, uma figura deformada de um anjo, feminino, despudorada e sinuosa, como que parodiando a Vitória de Samotrácia?

São José se destaca pelo gesto assustado, de aparente repugnância para com seu filho adotivo. É espantoso vê-lo no conjunto como o único personagem a depreciar o “espetáculo”. 

Que espécie de católico crê que a humilhação dos símbolos mais caros ao catolicismo reverte em conversões ou numa aceitação melhor da Igreja e de Nosso Senhor?

Existem: O Arcebispo Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, disse que a exibição de diferentes presépios sempre foi “um forte instrumento de evangelização”.

Entre São Paulo e Brasília

A conversão de São Paulo, Caravaggio

Na terça-feira, 4 de dezembro, o ministro do STF Ricardo Lewandowsky, já acomodado em seu assento em um voo doméstico entre São Paulo e Brasília, foi interpelado por um desses adolescentes de espírito que acreditam que qualquer lugar do mundo é palco para sua liberdade de expressão.

Ao provar do veneno liberal que ele próprio destila, o ministro não chegou a perder a cabeça como Robespierre: simplesmente mandou chamar a polícia.

Enquanto vibrações de apoio de intensidades diversas percorriam esquerda e direita, os católicos se perguntavam (ou ao menos deveriam): “E o Quarto Mandamento? E o princípio de obediência à autoridade pregado por São Paulo?”

Em minucioso artigo para a revista Permanência, Antônio Machado  responde a essa e outras perguntas que assombram o espírito dos católicos a cada vez que uma cena dessas se repete.

Leia o artigo completo na Revista Permanência online